terça-feira, 19 de abril de 2011

Fatores estimuladores da Educação a Distância

O debate sobre Educação à Distância começa a tomar corpo na Universidade brasileira sob a influência de umas tantas variáveis estimuladoras.

Os governantes encontram dificuldades em prover de docentes as unidades escolares que a sociedade exige e, quando tem condições de realizar concursos, não encontram pessoal qualificado. O desemprego ainda não atingiu os níveis suficientes para que o pessoal qualificado seja atraído para a carreira do magistério, qualquer que seja o nível. A escola conduzida pela iniciativa privada começa a encontrar dificuldades para ter alunos com poder aquisitivo para o pagamento das mensalidades. Após a falência da Escola Pública surge o fantasma da falência da Escola Privada quando se lhe ameaça cobrar os impostos devidos.

Os organismos internacionais procuram forçar a ideia de globalização da cultura junto à globalização dos mercados. A criação de mecanismos de validação internacional de diplomas e títulos acadêmicos, como formadores de um mercado de empregos global, seria capaz de ocupar o incipiente mercado de trabalho dos países menos desenvolvidos com os excessos de mão de obra qualificada dos países ricos. Para atingir a tais objetivos a globalização dos sistemas de ensino seria etapa de enorme importância estratégica. O Ensino à Distância seria de grande eficiência no embotamento de sentimentos nacionalistas e imposição de uma cultura hegemônica.

O alunado mais favorecido, que dispõe de facilidades de acesso à Internet, sente a diferença marcante entre os conhecimentos que lhes são oferecidos em salas de aula e os disponibilizados e ou cobrados via Internet pelas universidades do exterior. O ensino prático exige pesados dispêndios em material de consumo e tais verbas não são disponibilizadas nos orçamentos dos Sistemas brasileiros de Ensino. Sempre que os modelos computacionais interativos tendem a substituir o ensino prático, são objeto de admiração e crédito.

O sistema particular de Ensino precisa de buscar a qualidade para evitar o insucesso financeiro, mas prefere direcionar os dispêndios em obras e equipamentos que lhe aumente o patrimônio e crie uma falsa aparência de qualidade. Buscar os melhores docentes, na maioria das vezes, implica em maiores pressões pela disponibilização de material de consumo para aulas práticas. O micro lhes parece a solução pois a simulação no micro é inquestionavelmente mais barata, principalmente se o software é pirateado, os disquetes, papel e tinta de impressão correm à conta do alunado.

Os docentes buscam, desesperadamente, meios pelos quais possam exercer seu papel na sociedade sem a aquisição de livros e periódicos estrangeiros, cujo custo passou a ser incompatível com seus salários. Encontram na Internet a solução que lhes permite a atualização e a publicação de suas obras e resultados. Alunos de outros cursos buscam orientação junto aos docentes via Internet com uma regularidade surpreendentemente maior que seus próprios alunos dos cursos presenciais. Confirma-se o dito popular que o santo de casa não faz milagres.

As áreas de informática e telecomunicações buscam desesperadamente as verbas que lhes permitam integrar a RNP e pleitear a atualização das conexões integrando-se na rede de alta velocidade. Precisam de projetos governamentais capazes de justificar os investimentos. Alguns dos projetos de Educação à Distância, que estão surgindo evidenciam bem o fenômeno. Detalham a rede, detalham o hardware, pouco dizem sobre as estratégias da proposta pedagógica e nada falam sobre os softwares de autoria. Estipulam minuciosamente o mobiliário das salas, mas deixam indefinido o que será feito em Internet e o que ficará em CD-ROM.

A Internet comercial, entusiasmada com o crescimento do comércio eletrônico, tem a esperança que a Internet 2 venha a repetir o ocorrido com a velha Web. Contam que o investimento das universidades em pesquisa e implantação da rede, venha a ser coaptado pelo comércio eletrônico. A justificativa do investimento em benefício da Educação seria o respaldo para o benefício do setor privado através de fundos públicos.

As empresas montadoras de hardware, que se fingem de fabricantes, por não terem a mesma franqueza que a indústria automobilística, convenceram as nossas autoridades que o sistema de ensino delas precisa para possuir microcomputadores. Os mesmos alunos que montam em casa seus próprios micros e fazem a constante evolução, ou upgrade, de seu equipamento, ficam limitados a obsoletos equipamentos de marca até que as empresas montadoras consigam convencer o sistema de ensino que é indispensável um salto tecnológico que leve a uma concorrência monstro para a aquisição de milhares de unidades a uma só vez. Estrategicamente concluíram que chegou a hora dessa pressão e já conseguiram a promessa de apoio das agências financiadoras internacionais.

Pequenas empresas programadoras de software desenvolveram alguns programas de autoria, já ultrapassados, restritos a determinadas atividades didáticas. Esses programas possuem uma escassa flexibilidade mas se mostram suficientes para os atuais padrões do ensino de primeiro e segundo grau e para as limitações atuais que a Internet padece. Surgiram assim diversos Courseware que são comercializados a um custo elevado pela licença, ao qual se acresce um certo custo por usuário. Não há mais mercado para tais programas nos países desenvolvidos. Está na hora de verte-los para o espanhol e português para vende-los aos nativos. E sabem muito bem como faze-lo. Os fabricantes de software de autoria em Multimídia, que são muito mais completos e flexíveis e atualizáveis, passaram a disponibilizar módulos de gerenciamento de curso que permitem a execução de cursos presenciais ou à distância a custos infinitamente menores e nossos programadores tem demonstrado a capacidade de suprir nossas necessidades..

Algumas unidades de ensino, na maioria privadas, encontram nos projetos de Educação à Distância o campo fértil para arrombar os cofres das agências financiadoras de Ensino e Pesquisa e para criar um vapourware de que vão produzir um ensino de primeiro mundo. Quando muito desenvolvem alguns módulos de treinamento via Internet que teriam sido milhares de vezes mais completos e eficientes se distribuídos em CD-ROM. As universidades do sistema estatal de ensino observam, com perplexidade, tais iniciativas. No seio delas há os que julgam que, no andar da carruagem, as escassas verbas da Educação poderiam escoar pelo ralo do sistema privado. Marcharíamos, no ensino de terceiro grau, para o mesmo fenômeno ocorrido nos dois primeiros onde a escola privada aparenta, falsamente, uma qualidade superior ao da escola pública, alimentada que tem sido pelos benefícios fiscais, previdenciários e creditícios proporcionados pelo poder público.

A proposta de Educação à Distância está conseguindo uma grande mágica: aproximar os professores das Faculdades de Educação dos microcomputadores. Eram eles os que mais reagiam à introdução de microcomputadores no ensino. Consideravam-no, no máximo, como um instrumento de treinamento e muitos o viam como ameaça ao papel do professor. A Internet conquistou-os. A Internet tira os riscos do confronto entre mestres e educandos num tete a tete no qual a posição de mais saber pudesse estar ameaçada. O professor é capaz de, prazerosamente, assumir a posição de mero gerente de um courseware, sem que se sinta diminuído, porque detém o controle da tecnologia que talvez pudesse perder no Ensino Presencial Assistido por Computador. Aceita a Internet como acabou aceitando o retroprojetor, ainda que tenha rejeitado o projetor de slides, o filme, o gravador e a filmadora ou o videocassete.

As redes comerciais de televisão tiveram papel bastante importante na aceitação da Educação à Distância. Algumas iniciativas governamentais tipo Mobral apontaram à TV comercial a possibilidade de obtenção de verbas governamentais destinadas à Educação. Sem dúvida a TV poderia ser instrumento educativo de grande valia. Ao invés de divulgar falsos conceitos nutricionais ou higiênicos no exclusivo interesse das indústrias patrocinadoras poderia divulgar noções corretas de Educação Ambiental, Educação Nutricional, Educação Sanitária, etc. Não o faz como um todo, mas tem tentado criar programas, ou mesmo canais próprios com tais objetivos. É pena que faça com uma das mãos e desfaça com a outra. Sem dúvida a TV não poderá estar ausente, nem dominar com exclusividade, nenhuma proposta séria de Educação não presencial.

Muitos são, portanto os fatores conjunturais que favorecem que a Educação à Distância se torne um modismo, que muitos discutem, mas poucos tomam a iniciativa pessoal de realizá-la.

Foi retirado daqui

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